Não Precisaria ser assim –

 

Gilmar – Marcílio – 20 de agosto de 2016

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Conversas entreouvidas ao pé da orelha sempre me agradam. Se for apenas um fragmento, melhor ainda. Completo o restante com a minha imaginação. Pois, por estes dias, passeava eu distraidamente pelas ruas centrais, quando meu olhar foi capturado pela presença de um velhinho, bem velhinho mesmo, e uma morena sestrosa, como diz a música. Seu olhar lambia o chão e terminava na raiz do cabelo dela. Bonito de ver o desejo ainda incendiando a vida desse homem. A tal da moça ouvia com atenção o que ele dizia, mas infelizmente só acompanhei o começo. Eu estava a dois passos deles, quando ressoaram estas palavras: “Você é solteira, minha querida?” “Sim”, respondeu com o máximo de delicadeza a garbosa criatura. Ao que ele concluiu, não sem antes suspirar longamente: “Meus parabéns, não sabes do que te livraste. Ah, se eu pudesse voltar atrás…” E mais não pude escutar, pois razão não havia para me intrometer nesse curioso diálogo. O que não me impediu de seguir adiante pensando sobre isso. Mas será que precisa ser assim mesmo? Casamento é sacrifício, tortura, prisão? Cinquenta anos terminam, necessariamente, em mágoa e rancor? Não e não, digo para mim. Há sempre um componente de desleixo, descaso, quando não de relaxamento. A maioria dos seres humanos é suficientemente interessante para nos agradar durante décadas. Cabe a nós instigar a curiosidade, mantendo o gosto vivo.

Ao lembrar da expressão de arrependimento do personagem dessa historinha, dou como certo que algum dia ele amou loucamente sua mulher, cometeu loucuras, teve febre, deixou de fazer isso e aquilo só para ficar ao lado dela. Sim, o tempo tudo corrói, mas podemos evitar tantos malefícios quando a intimidade se transforma em hábito. Gosto muito da ideia de repetir, aprofundar, polir. O que é novo fascina, seduz, mas dá medo, insegurança. Alguém aprecia sentir os membros tremendo, não saber onde colocar as mãos e muito menos dizer uma frase que não resvale no senso comum? Pois eu daria tudo para que isso passasse logo, caso a “doença” da paixão me visitasse outra vez. Acho lindo instalar-se no conforto de um cotidiano tranquilo, aninhando certezas, mesmo que algumas vezes enganosas. Mas eis que a malfadada rotina se intromete e trocamos o entusiasmo pelo bocejo. A vontade de se cuidar para o outro é substituída por um pijama surrado. A barba? A gente faz amanhã. Ficamos aposentados não somente do trabalho, mas também da rica possibilidade de sair do nosso eu, incorporando o diferente que agora nos é familiar. Psicólogos publicam teses e mais teses sobre o assunto. O que estou dizendo, portanto, não é inédito e nem tem a pretensão de ser. Mas, dada a persistência com que ocorrem esses acidentes de percurso, é de se questionar o que está errado “nesta longa estrada da vida”. Todos querem amar; poucos se dedicam à delicada arte de cuidar, de proteger.

Não se defende aqui o argumento de que as relações atuais sofreram um abalo irreversível. Resisto a essa tentação. As coisas mudaram, só isso. Não vivemos mais numa redoma, numa impossibilidade de refazer o nosso itinerário amoroso. Basta olhar ao redor e, pimba! Menos sofrimento por um lado, mais banalidade pelo outro. Perde-se aqui e ganha-se acolá. A trajetória humana é toda feita desses grandes erros e acertos. A cenografia é diversa, muda o elenco. Mas sempre me sinto incomodado com esse fatalismo, com a tendência de acreditar que “ah, na minha época”, etc. Duas pessoas juntas se fortalecem, criam vínculos que as impulsionam e as fazem seguir faceiras, enfrentando adversidades e multiplicando o prazer de estarem uma com a outra. Já vi muitos casais expressando afeto genuíno mesmo depois de completarem bodas de ouro. Mas, infelizmente, os que apenas se toleram me parecem ser em proporção maior. São o retrato da nossa incapacidade para gerenciar com competência essa benção que é ver no parceiro a redenção da nossa própria insuficiência. Enquanto alguns desprezam o que o destino ou os deuses lhe deram, não faltam os que rezam para serem aquinhoados com esse prêmio. Quando o temos à nossa disposição, senhores, atenção! Se possível, redobrada.

Ser espectador é mais fácil e também nos dá a vantagem de ver com isenção. Muitos nem percebem que estão no piloto automático. É melhor ficar acomodado. Você provavelmente acredita nisso e eu também. Mulheres costumam ser mais corajosas, nós nem tanto. Um sofá macio, uma boa TV de Led e comida garantida. É isso? Ou estou exagerando? Enfim, às vezes é útil repisar o óbvio. No fundo, a gente se crê muito original, mas nada mais fazemos do que continuar seguindo o mesmo script. Tanto no êxtase quanto no descaso final. Eu não gostaria de sentir a falta de quem está comigo só depois da sua morte. E é assim com muita viuvez. Brigam, brigam, brigam e parece que, fechado o caixão, já não serão mais capazes de seguir adiante sozinhos. Algo além de culpa?

Prefiro me antecipar: falo da admiração, de como é bom estar ao lado, do privilégio que é termos nos encontrado. A intensidade muda, naturalmente, mas algo precisa continuar vibrando dentro de nós.Sem técnicas ou estratagemas propostos por especialistas. Afinal, deveríamos ser capazes de administrar os sentimentos. Que apenas o nosso corpo murche. E as mãos continuem se buscando.

Gilmar Marcilio
Blog http://wp.clicrbs.com.br/mardeideias/?topo=87,1,1,,,87
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