Carpinejar: não se mexa depois da separação.

Foto: Pixabay, Divulgação
Foto: Pixabay, Divulgação
Na separação, o primeiro passo é não dar nenhum passo. A imobilidade é o grande truque. Não se mexer dentro da raiva porque pode se arrepender no futuro. Não tenha pressa de tomar decisões.

Respire fundo porque as 48 horas após o término serão fundamentais para assegurar uma possível volta. Os divórcios se tornam definitivos não com aquilo que acontece frente a frente, e sim com as consequências irracionais do desespero de ser ver sozinho de repente.

As pessoas ficam transtornadas quando isoladas e se ofendem como animais, com tamanha gravidade que sacramentam o término. Daí não tem como recuperar a honra. Os machucados das discussões se transmudam em golpes fatais na reputação.
Aqueles que se afastam, em vez de calar a boca e realizar um exame de consciência, ampliam os defeitos e a crise colocando mais gente para opinar sobre o que aconteceu de errado no romance. Acabam telefonando para os familiares e amigos do recente ex para contar segredos que nunca deveriam ter saído da relação. A fofoca sempre será o juiz de guerra.

Houve o afastamento provisório, um desentendimento passageiro, não significa um ódio mortal para propor retaliações.

Não encurte o caminho, não corra com os fatos, não se adiante a espalhar a notícia. Um telefonema ou um toque no interfone pode revolucionar a situação em algumas horas e terá o trabalho dobrado de se explicar para a cidade inteira.

Não mergulhe na ansiedade de provocar a saudade e mostrar o que o outro perdeu. Não se vingue trocando o status do Facebook. Não empregue artifícios do terrorismo, colocando bombas nos santuários do relacionamento e nos lugares prediletos do casal. Não saia transando com antigas pendências e novos pretendentes. Não poste imagens exaltando a condição solteira. Não mexa em seus arquivos no celular. Não descarte as conversas. Não bloqueie o seu amor no WhatsApp somente para se enxergar superior. Não apague as fotos do Facebook e das redes sociais, pois o portal ainda está aberto e qualquer ataque é passível de dificultar o retorno e restringir o respeito.

Esconda as bebidas, compre pizza, empreenda um estoque de sorvete e chocolate, e assista a cinco temporadas de uma série alternando o sofá da sala e a cama. Quando não nos precipitamos tudo se resolve automaticamente.

Não fale mal de quem ainda lhe fez bem durante um longo tempo. Bate-bocas são contornáveis, o que não tem conserto é a difamação.

Pense muito antes de enterrar alguém no coração, para não enterrar vivo.

 

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Cafezinho

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Fabricio Carpinejar
Café é emoção. Café é a lembrança dos melhores dias da convivência com os pais e irmãos, é herdar hábitos, é carregar princípios. Os dias mais duros de qualquer vida tiveram o consolo de um café. Os dias mais alegres de qualquer vida tiveram a recompensa de um café.

No gole de um café, existe uma correnteza de cenas de amizade, de ternura, de conselhos, de apoio e de juramentos.

Café lembra receber visita, casa cheia, sobremesa.  Café estende o tempo para um pouquinho mais tarde.

Café engana os horários, os prazos, os compromissos. Ainda mais se é um cafezinho. Ele se faz de pequeno e inofensivo para deixar as emoções ainda maiores.

Ninguém é capaz de negar um cafezinho. A oferta, o carinho, a amizade de um cafezinho. O cafezinho é como um abraço, é como um aperto de mão, não se diz não. É um crime dizer não. É uma ofensa dizer não. Oferecer cafezinho é avisar: eu gosto de você. Oferecer cafezinho é avisar: eu fui com a sua cara.

O cafezinho é sempre sinal de que a conversa vai continuar, de que o almoço não acabou, de que ainda é cedo para se despedir. O cafezinho é a saideira dos amigos à luz do sol, a saideira dos sóbrios.

Já a cafeteira faz barulho porque chama a fome. Tem o apito de uma chaleira dentro de si para chamar a fome. O café chama bolacha-maria. Quem não fui criança para mergulhar a imensa bolacha no café? O café chama pão aquecido. Quem não foi adolescente para sujar a asa da xícara com manteiga? O café chama chocolate. Quem não se apaixonou para dar o pequeno acompanhamento para a sua namorada, mesmo louco para comer?

O primeiro encontro não será um chopp, um cinema, uma balada, um jantar, mas um café: “Vamos tomar um café?” O convite é despretensioso e não assusta, é um convite entre a amizade e a sedução, entre a educação e o envolvimento.

Tudo pode acontecer quando se toma um café junto: casamento começa com o café, filhos tem a sua linha de tempo iniciada com o café.

O café é a porta das primeiras palavras. É a janela das primeiras juras. É o primeiro passo da boca para o beijo. Quantos firmaram uma relação com o sabor de café nos lábios? Não o sabor de quem está sonhando, o sabor de quem finalmente acordou para a vida de alguém.

A intimidade surge ao descobrir o modo que cada um pede o seu café. Com leite, curto, longo, forte, fraco. É a primeira informação que se descobre do outro e que se prolonga pela vida inteira.

Casais que se amam medem o tempo de convivência por colherinhas. Um sabe do outro exatamente quantas colheres de açúcar precisa. Ou quantas gotas de adoçante.

Eu reverencio o amor quando a esposa serve o marido e o marido serve a esposa e ambos não perguntam quantas colheres ou gotas pôr. Conhecem de cor.

Eu reverencio a rotina, que nunca é repetir o que não se gosta, mas repetir todo o dia o que se gosta muito.

Publicado no Jornal Zero Hora
Coluna Semanal
25.10.2016

Triste Morte

 

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Fabricio Carpinejar
Você só vê as vítimas da morte. Até acha que ela é infalível. Só visualiza o trabalho feito, os obituários implacáveis, os caixões descendo no chão ou subindo nas paredes, a sua inclemência com todas as faixas etárias.

Mas não enxerga as suas falhas. Não percebe o quanto ela deixa a desejar em termos de aproveitamento.

A morte também é humana e incompetente. Às vezes, se engana de horário. Às vezes, erra a pontaria. Já dormiu em pleno expediente comercial, já fez greve por aumento de salário, já cometeu o vacilo mais bobo e se apaixonou pelas suas presas.

A morte nem sempre acerta. Amarga dúvidas vocacionais e crise de consciência. Fraqueja diante de velho casal que dorme de conchinha e mente para o destino que não encontrou ninguém lá.

A morte não é imbatível como julgamos. Permite aviões com equipamento vencido pousarem, autoriza ônibus com motorista cochilando não cair em curva, salva pedestres desatentos.

Ela sopra vento frio no rosto de suas próximas encomendas para dar chance de se protegerem e mudarem de percurso. Educada, alerta a intuição de cada um antes do fim.

Há mais quase acidentes do que acidentes em seu currículo. Quantas tragédias foram evitadas pelos seus assobios?

A morte é a mais triste das criaturas, nunca é comemorada. Não se dignifica com o trabalho. Não se converte ao bem poupando ninguém. É gerada em nosso nascimento, porém permanece a vida inteira intratável como vilã.

Seus fracassos generosos não são noticiados pelos jornais e terminam desconhecidos. Quem ganha com a omissão é o anjo da guarda, que recebe créditos quando alguém escapa por um fio de uma situação de perigo.

A morte tem seus segredos de amor, sua coragem parece ser a de negar a si mesma. Cansa dos choros, gritos e três batidinhas na madeira, não suporta os arranjos acobreados dos velórios, a comidinha fria e a decoração fúnebre de suas festas.

Certo que também experimenta os seus momentos inspirados e cruéis de guerras, terremotos e chacinas, porém odeia sangue, prefere levar as pessoas dentro do sono, onde pode se misturar à paz das lembranças e conhecer melhor os desejos do falecido. E abomina igualmente o amadorismo de balas perdidas e a crueldade desnecessária do narcotráfico.

A morte nem sempre mata — é a gente que não tem capacidade de provar as suas distrações invisíveis.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna Semanal
27.09.2016

Meus pés não são escravos

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Fabrício Carpinejar
Arte de Eduardo Nasi

Pode me prender os braços, algemar as mãos, que não me incomodo, inclusive participo da fantasia. Mas não prenda as minhas pernas que viro bicho em jaula, louco em hospício.

Alguns dirão que são traumas de vidas passadas. Acho que é problema adquirido nesta encarnação mesmo. Talvez seja uma vingança ao grilhão das botas ortopédicas da infância. Fui um pássaro preso pela coleira dos pés logo quando aprendia a voar na escola.

Tenho uma hipersensibilidade nos dedos. Meias apertadas são camisas de força, tampouco cultivo paciência para amaciar sapatos duros.

Eu me angustio quando não existe folga para movimentar os pés. O peso de uma coberta no inverno já me perturba. Vejo-me enterrado vivo, ajustado no caixão. Dou pontapé, esperneio, grito, quebro a forma imaginária, o quadrado invisível do pesadelo.

A cadeira do carro e a poltrona do avião com pouquíssimo espaço me põem nervoso. Começo a ofender mentalmente quem está à frente.

Reagi muito mal a uma brincadeira dos filhos na praia. Quando eles cobriram todo o meu corpo de areia enquanto cochilava debaixo do guarda-sol. Eu gritei tanto com as minhas crianças que o mar se envergonhou de fazer barulho com as ondas.

Gostaria de ser menos tenso com os pés. Mas eles são livres e selvagens, pensam absolutamente sozinhos e seguem os caminhos sem me perguntar aonde desejo ir.

Publicado no Portal Vida Breve
Coluna Semanal
07.09.2016

Entre Vidraças e Vitrines

Texto: Fabrício Carpinejar
Arte: Eduardo Nasi

A minha esposa tem uma incrível vocação para perder brincos, só não é maior do que a sua capacidade fabulosa de reencontrá-los.

Já estou acostumado a vê-la triste assim que identifica o extravio e eufórica logo que localiza o par. Ela sempre resgata o conjunto sumido. No máximo, a operação de revista e reconstituição dos possíveis lugares da queda demora um dia.

Costumava ajudá-la no começo, largava as minhas atividades e assumia a força-tarefa imediatamente. Sofria junto, rezava Salve-rainha, entrava em desespero por empatia, eu me agachava no chão e encerava o piso com as mãos à procura de uma tarraxa ou um destroço da joia. Dava dó do desfalque e da orelha de outono. Perguntava quanto custava e, como todo homem desajeitado com as lacunas, prometia que compraria outro igual.

Mas eu me habituei aos lapsos. Parei de me estressar com os sucessivos desaparecimentos e reaparições.

Às vezes acho que tudo é um golpe de marketing. Beatriz perde somente para se surpreender depois e aumentar a cotação de seus pertences. No fim, fica sempre feliz com a volta do brilho ao lóbulo. Muda o seu humor, parece até que foi presenteada.

O raciocínio é mágico. Perder algo para resgatar em seguida é a possibilidade de comprar novamente aquilo que já tinha.

Nosso apartamento de manhã tem a atmosfera tensa de uma casa de penhor e de noite lembra a felicidade gloriosa de uma joalheria. Nunca é monótono

Publicado no Portal Vida Breve
31.08.2016
Coluna Semanal

Moletom na Cintura

 

Fabrício Carpinejar

Reclamei das polainas nas mulheres. Por uma questão de justiça e igualdade dos gêneros, não posso deixar de criticar o moletom na cintura, espécie de polaina entre os homens.

Sei de um candidato a emprego desclassificado numa seleção porque estava com o moletom na cintura. O gerente de RH bateu o olho naquele centauro cafona esperando na salinha e já o dispensou sem direito a apelações e falsas esperanças.

Vestir moletom indica mau gosto, exibi-lo no quadril acaba com as dúvidas sobre a regeneração do sujeito.

Concordo que a malha pendendo como um rabo tem poder de veto na admissão de qualquer trabalho.

O moletom na cintura é andar com uma vovó abraçando as pernas. Tem um quê incômodo de arrasto. Como um para-choque solto de carro. Como atropelar uma baliza.

Carregá-lo na cintura é prova de preguiça. Se o homem não é capaz nem de levar o moletom no braço, certamente repassará tarefas adiante e procrastinará no computador.

Moletom nas costas é coisa de tiozão, moletom amarrado na cintura é de alguém que ficou preso na garagem de uma reunião dançante.

É um vexame masculino. Será que o cara levou a sério o pedido materno de não esquecer o casaco? Não entendeu que era apenas uma formalidade?

Ao mesmo tempo que envelhece a aparência, infantiliza o caráter. É pôr um ursinho de pelúcia no lugar do cinto. Não enfeita a roupa, estraga.

A princípio, sugere a prevenção ao frio do entardecer com uma roupa reserva. Só que o portador esquece de um detalhe básico: calça não é cadeira, calça não é armário, calça não é cabideiro.

O moletom na cintura é próprio do homem querendo usar saia, porém sem a devida coragem para enfrentar a censura dos outros. Ele disfarça o seu flagrante desejo improvisando um saiote. Não é assumido, e busca se enganar ao máximo com permanentes gambiarras.

O macho que amarra o moletom começa a rebolar estranho e exagerado. Não anda, desfila. Baixa uma top model do umbigo para baixo. Se a mulher se esconde com o moletom, o homem vira uma saúva e aumenta o seu requebro.

Há uma regra fundamental na moda. Duvide de tudo o que é quentinho e confortável.

Publicado no Jornal Zero Hora
Coluna Semanal
09.08.2016

O Fim do Nome – Fabrício Carpinejar

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Fabrício Carpinejar
Foto de Gilberto Perin

O amor assassina o nome próprio.

Você perderá o seu nome. Lentamente. Indubitavelmente. A ponto dele virar uma ofensa.

Puxo discussão com a mulher quando ela me chama de Fabrício. Declaro guerra na hora. E não diminuo a ofensiva mesmo quando ela me responde o óbvio, que está me chamando pelo meu nome.

É que me acostumei com os apelidos, diminutivos, aumentativos, em ser nomeado de Paixão, Gostoso e Delícia, que não supero a regressão. O nome acaba sendo a denúncia de que fiz algo de errado. O nome é uma suspeita de que decepcionei. O nome é rebaixamento da intimidade, é atraso, é greve, é contenda. Traz uma solenidade grave para a conversa, rompe com as brincadeiras, suspende a informalidade. Em sua cortina sonora, vem a ancestralidade da mãe e do pai me xingando por alguma coisa que quebrei em casa. Despertam as vozes de apreensão e de autoridade que moram no nome:

– Fabrícioooooô!

Depois do amor, o nome morre. Foi ferido pelos castigos e medos no tremor da vida, mas morre somente com a convivência a dois.

Não ouço mais o meu nome esportivamente, à vontade, como quem descasca bergamota e cospe as sementes pela janela.

O amor destruiu o meu nome, esfacelou o meu nome, corrompeu o meu nome. Já não posso mais ser Fabrício impunemente. É uma advertência. Dependo da voz da Linda da minha Vida me adjetivando. Não sou mais substantivo.

Perdi o prazer do eco. Nem fico para o retorno do timbre. Vou extraviando a importância de escutar alguém me chamando, a alegria de ser gritado por um colega ao longe. Nem sei como reagiria hoje à lista de chamada da escola – enfrentaria a professora com um ausente?

O amor termina com as individualidades até que sejamos anônimos, desaparecendo a vaidade do batismo.

Ou talvez o casamento seja um segundo batismo, onde recebemos um codinome secreto, um antinome público, para o regozijo particular.

Publicado no Jornal O Globo (blog)
Coluna Semanal
04.08.2016