Arco do Conhecimento

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Gilmar Marcilio

23 de setembro de 2016

Qual é o melhor tempo para aprender? Na juventude, quando os impulsos devoram os medos e nos empurram para a frente? Ou na velhice, quando a prudência, a grande aliada do bom senso, nos permite fazer as escolhas mais acertadas? É provável que exista um arco do conhecimento, com ascensão, auge e declínio. Os extremos de nossas vidas parecem reservados para tarefas distintas. É fato aceito que a maturidade é a época na qual mais se seleciona e as decisões pensadas nos concedem um grau maior de acertos. Mas talvez não seja sempre assim. Basta reparar no que se passa ao nosso redor para descobrir que aos últimos anos de nossas existências não está reservada a melhor cota de decisões. As razões são múltiplas e entre elas pode-se destacar o fato de que a experiência não é, necessariamente, um valor em si. Quem foi generoso outrora o será mais ainda no fim de seus dias. O egoísmo, da mesma forma, encontrará campo fértil para se espalhar. Além disso, é provável que nossa mente seja capaz de assimilar até um certo limite. Depois disso, será somente repetição. Pense no legado de pintores, filósofos, cientistas. Seus derradeiros anos representaram a depuração do que os moveu anteriormente. As raízes foram plantadas na terra desde há muito. Poucos têm uma iluminação tardia, deitados em sua cama de moribundos. Conseguirão, talvez, fazer aflorar o que esteve armazenado.

Por isso é preciso trabalhar incessantemente. Observar com acuidade, ler como um ato religioso, encontrar os amigos como se cada vez fosse a última. Nutrir-se, sabendo que a fome será nossa companheira constante. Onde está o tédio para quem permanece de olhos abertos? Quando o vento açoita meu corpo ou o sol queima a pele, refreio o ímpeto de reclamar e murmuro para mim mesmo: isso é bom, sinal de que continuo vivo. Aposto na grandeza desta manhã, deste momento. Tenho um gosto renovado por quase tudo que me cerca. Tento ser agradável, acolhendo, reservando os julgamentos para raras ocasiões. Como queremos ser entendidos se agimos em sentido contrário? Não há esgotamento para quem se interessa pela liturgia da alma humana. O ponto mais alto desse arco é o mérito por todo esforço, pelo empenho.

As coisas findam e é preciso avistar esse adeus bem antes que os sinais o digam. Tudo o mais é mecânica, como se os “músculos” do cérebro ficassem cansados e já não respondessem ao que continua pulsando. Refletir, mas permanecendo em ação. Desde cedo, ao alvorecer, quando o céu e a terra parecem se fundir num só.

Em nome de Deus

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16 de setembro de 2016

Não encontrava o amigo há tempos. A lembrança que guardava dele é a de uma pessoa bem-humorada, sempre pronta a brincar com as situações mais prosaicas. Estar ao seu lado sempre foi uma diversão. Leve, transformava as horas em minutos. Parecia não conhecer adversidade que o abatesse. Porém, como sempre, muitas coisas não são o que parecem. Problemas de ordem afetiva e financeira o levaram à derrocada. Neste meio tempo, encontrou-se com um colega de escola que lhe falou da salvação de sua vida: frequentar uma igreja. Resistente no início, não viu porque não experimentar, já que tantas portas estavam se fechando. E eis que, como num passe de mágica, o milagre se fez: tudo começou a readquirir ordem e sentido e hoje se diz um homem feliz e abençoado. À custa de dez por cento de seu salário e mais umas pequenas demonstrações materiais de sua fé. Afinal, só quem oferece em abundância, em abundância receberá. Diz da sua conversão como o passo mais importante que já deu na vida e hoje é capaz de atravessar o Brasil para assistir a palestras de expoentes da seita. É, em suma, uma criatura que encontrou o Caminho.

Como sou daqueles que perdem a amizade mas não a piada, recheei nossa conversa com uma boa dose de ironia. Que caía no vácuo à medida em que cada frase ia sendo proferida. Aos poucos, fui me convencendo da importância dessa nova realidade em sua existência. O negócio era sério mesmo. Fui recolhendo minhas palavras e deixando que ele falasse e falasse, citando salmos e outras passagens da Bíblia. Foi uma tentativa meio doutrinadora, sem dúvida, como costuma acontecer toda vez que encontramos alguém ungido pela Verdade. Por outro lado, percebi tanta convicção, tanta certeza em seu discurso que pensei: quem sou eu para dizer que ele está errado? Não será o primeiro e nem o último a sofrer esse processo de transformação radical por vias espirituais. Simpatizo mais com quem não mistura dinheiro e transcendência. Mas, pensando bem, poucos pregadores não fazem isso. Muda apenas o marketing e a agressividade com que somos induzidos a nos tornar sócios (minoritários) de Deus. Um ponto, no entanto, não pode ser questionado: sofrendo uma espécie de lavagem cerebral ou simplesmente abrindo uma janela de esperança, muitos se tornam seres mais éticos e se afastam dos seus vícios. Mesmo que para isso passem a medir seus comportamentos pela rigidez da punição e o afloramento do medo. Bem, algum preço sempre se paga.

Continuo na confortável posição do agnóstico: não afirmo e não nego. Mas, depois de ver o que fizeram com algumas pessoas próximas, não serei eu a dizer que esse remédio faz mal. Só gostaria que não o prescrevessem a mim. Por enquanto, pelo menos.

Movimentos

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Gilmar Marcilio
09 de setembro de 2016

Você acredita que está vivendo o pior momento de sua vida. Você acredita que está vivendo o melhor momento de sua vida. Nos dois casos, há um erro crasso de interpretação, pois sempre é preciso afastar-se das circunstâncias para saber o que elas realmente significam. Há uma magnífica fábula zen budista que retrata um homem chorando por perdas que, ao longo do tempo, irão se revelar benfazejas. Em outras ocasiões ele exulta, mal sabendo que o aguardam dramas de proporções épicas. Pois assim é existir, oscilando entre o peso e a leveza, sem saber ao certo o que o futuro nos trará. Desde que assimilei essa lição, comecei a ver tudo com olhos menos lacrimosos e a alma relaxada. Sobretudo porque, como está escrito nos princípios estoicos, não está em nós a possibilidade de alterar determinados fatos. E sofrer por isso, nessa condição de imobilidade, torna-se inútil.

Quando olho para o meu jardim e suas centenas de mudas de amor-perfeito floridas sei que é preciso sentir-se grato, mas deixar passar. Algumas flores já morreram; aqui e ali folhas amarelecem. As laranjeiras deixam seus frutos cair na terra, exaustas, servindo estes de adubo. Mas já, então, pode-se ver botões brancos perfumados anunciando os próximos frutos. Observo com atenção, silenciosamente, certo de que é na natureza que deverei apoiar meu coração algumas vezes cansado. E é nela, também, que encontrarei a alegria que tantas vezes falta entre os homens. Apesar disso, não deixo de buscar nos amigos o entendimento ausente, comprometidos que estamos na turbulência das nossas emoções. É preciso ponderar para não se entregar à tentação de culpar os outros, sempre eles. Da mesma maneira que estamos imbuídos de razões estritamente nossas, somos muitas vezes incapazes de saber o que leva alguém a agir dessa ou daquela maneira. Esse exercício sutil de tolerância nos conduz a um estado mental que considero precioso: a serenidade.

Tudo é sutil, discreto, nem sempre revelado. Com um pouco de paciência, as vendas são retiradas de nossos olhos e a realidade sem máscaras se revela. Não há culpados. Apenas o movimento que aquece e permite à engrenagem continuar girando. Há o destino e as situações que o revestem. Rebelar-se? Inútil. O que não significa que devamos ficar passivos, à espera do bem e do mal. Temos uma parcela de responsabilidade nisso tudo, não se pode negar. O segredo é descobrir qual a dimensão dentro do todo. Quem luta ferozmente é engolido pelo mar. Quem se entrega é carregado com doçura pelas ondas.

Não Precisaria ser assim –

 

Gilmar – Marcílio – 20 de agosto de 2016

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Conversas entreouvidas ao pé da orelha sempre me agradam. Se for apenas um fragmento, melhor ainda. Completo o restante com a minha imaginação. Pois, por estes dias, passeava eu distraidamente pelas ruas centrais, quando meu olhar foi capturado pela presença de um velhinho, bem velhinho mesmo, e uma morena sestrosa, como diz a música. Seu olhar lambia o chão e terminava na raiz do cabelo dela. Bonito de ver o desejo ainda incendiando a vida desse homem. A tal da moça ouvia com atenção o que ele dizia, mas infelizmente só acompanhei o começo. Eu estava a dois passos deles, quando ressoaram estas palavras: “Você é solteira, minha querida?” “Sim”, respondeu com o máximo de delicadeza a garbosa criatura. Ao que ele concluiu, não sem antes suspirar longamente: “Meus parabéns, não sabes do que te livraste. Ah, se eu pudesse voltar atrás…” E mais não pude escutar, pois razão não havia para me intrometer nesse curioso diálogo. O que não me impediu de seguir adiante pensando sobre isso. Mas será que precisa ser assim mesmo? Casamento é sacrifício, tortura, prisão? Cinquenta anos terminam, necessariamente, em mágoa e rancor? Não e não, digo para mim. Há sempre um componente de desleixo, descaso, quando não de relaxamento. A maioria dos seres humanos é suficientemente interessante para nos agradar durante décadas. Cabe a nós instigar a curiosidade, mantendo o gosto vivo.

Ao lembrar da expressão de arrependimento do personagem dessa historinha, dou como certo que algum dia ele amou loucamente sua mulher, cometeu loucuras, teve febre, deixou de fazer isso e aquilo só para ficar ao lado dela. Sim, o tempo tudo corrói, mas podemos evitar tantos malefícios quando a intimidade se transforma em hábito. Gosto muito da ideia de repetir, aprofundar, polir. O que é novo fascina, seduz, mas dá medo, insegurança. Alguém aprecia sentir os membros tremendo, não saber onde colocar as mãos e muito menos dizer uma frase que não resvale no senso comum? Pois eu daria tudo para que isso passasse logo, caso a “doença” da paixão me visitasse outra vez. Acho lindo instalar-se no conforto de um cotidiano tranquilo, aninhando certezas, mesmo que algumas vezes enganosas. Mas eis que a malfadada rotina se intromete e trocamos o entusiasmo pelo bocejo. A vontade de se cuidar para o outro é substituída por um pijama surrado. A barba? A gente faz amanhã. Ficamos aposentados não somente do trabalho, mas também da rica possibilidade de sair do nosso eu, incorporando o diferente que agora nos é familiar. Psicólogos publicam teses e mais teses sobre o assunto. O que estou dizendo, portanto, não é inédito e nem tem a pretensão de ser. Mas, dada a persistência com que ocorrem esses acidentes de percurso, é de se questionar o que está errado “nesta longa estrada da vida”. Todos querem amar; poucos se dedicam à delicada arte de cuidar, de proteger.

Não se defende aqui o argumento de que as relações atuais sofreram um abalo irreversível. Resisto a essa tentação. As coisas mudaram, só isso. Não vivemos mais numa redoma, numa impossibilidade de refazer o nosso itinerário amoroso. Basta olhar ao redor e, pimba! Menos sofrimento por um lado, mais banalidade pelo outro. Perde-se aqui e ganha-se acolá. A trajetória humana é toda feita desses grandes erros e acertos. A cenografia é diversa, muda o elenco. Mas sempre me sinto incomodado com esse fatalismo, com a tendência de acreditar que “ah, na minha época”, etc. Duas pessoas juntas se fortalecem, criam vínculos que as impulsionam e as fazem seguir faceiras, enfrentando adversidades e multiplicando o prazer de estarem uma com a outra. Já vi muitos casais expressando afeto genuíno mesmo depois de completarem bodas de ouro. Mas, infelizmente, os que apenas se toleram me parecem ser em proporção maior. São o retrato da nossa incapacidade para gerenciar com competência essa benção que é ver no parceiro a redenção da nossa própria insuficiência. Enquanto alguns desprezam o que o destino ou os deuses lhe deram, não faltam os que rezam para serem aquinhoados com esse prêmio. Quando o temos à nossa disposição, senhores, atenção! Se possível, redobrada.

Ser espectador é mais fácil e também nos dá a vantagem de ver com isenção. Muitos nem percebem que estão no piloto automático. É melhor ficar acomodado. Você provavelmente acredita nisso e eu também. Mulheres costumam ser mais corajosas, nós nem tanto. Um sofá macio, uma boa TV de Led e comida garantida. É isso? Ou estou exagerando? Enfim, às vezes é útil repisar o óbvio. No fundo, a gente se crê muito original, mas nada mais fazemos do que continuar seguindo o mesmo script. Tanto no êxtase quanto no descaso final. Eu não gostaria de sentir a falta de quem está comigo só depois da sua morte. E é assim com muita viuvez. Brigam, brigam, brigam e parece que, fechado o caixão, já não serão mais capazes de seguir adiante sozinhos. Algo além de culpa?

Prefiro me antecipar: falo da admiração, de como é bom estar ao lado, do privilégio que é termos nos encontrado. A intensidade muda, naturalmente, mas algo precisa continuar vibrando dentro de nós.Sem técnicas ou estratagemas propostos por especialistas. Afinal, deveríamos ser capazes de administrar os sentimentos. Que apenas o nosso corpo murche. E as mãos continuem se buscando.

Gilmar Marcilio
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Aproveite enquanto você pode

Gilmar Marcílio  – 27 de agosto de 20160

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A mulher segurava a mão da amiga e dizia, com uma mescla de tristeza no olhar: “Ah, minha filha, aproveite enquanto você pode, pois um dia isso tudo vai terminar.” Esta frase fatalista representava mais do que uma percepção particular: traduzia uma maneira de ver o mundo muito característica de tantas pessoas. As coisas podem estar seguindo bem, mas… Ou, em outras palavras, nada do que é bom dura para sempre. Ok, isso vale igualmente para o que é ruim, mas não significa que seja preciso se antecipar, sofrendo por algo que ainda não aconteceu. A senhora que proferia tão escura sentença se referia à velhice. Um tempo, segundo ela, coroado de sofrimentos e insuficiências. Escapava-lhe a possibilidade de pensar que nem todos andam pela mesma senda. E que uma atitude mental saudável pode ajudar a construir o nosso futuro. Pressupor-se numa perspectiva de vigor físico e lucidez provavelmente auxilia a erradicar da nossa mente tantos pensamentos nefastos. Claro que não temos domínio sobre o que está por vir. Mas ficar dando uma de oráculo amador também não contribui em nada. Alimentar-se do que há de pior não torna a vida mais leve. O elemento surpresa sempre estará presente. Melhor, então, supor-se na fileira dos abençoados que não passarão por grandes reveses ao longo da existência. Assim, estaremos construindo um projeto de felicidade que, mesmo se alcançado em doses mínimas, trará conforto em meio a tantas incertezas.

A cada dia que passa acredito mais na força de nossa mente determinando atos e emoções. Não faço uma conexão mística nesta constatação. Pode ser que ela exista, mas me baseio unicamente numa observação empírica. Pessoas que teriam tudo para agradecer pelo que têm, acabam destruindo o que de graça lhes é ofertado. Nada dá certo, porque não conseguem ver sem a máscara do fracasso. Nublam os dias ensolarados. Resultado, antes de tudo, da forma com que a imaginação subjuga a realidade. Como não existe um conceito real do bem e do mal, pelo fato da natureza ser absolutamente indiferente ao que pensamos e sentimos, cabe a cada um de nós pintar essa tela em branco. Todos possuem tal capacidade, poucos fazem uso dela. Na raiz talvez esteja a tendência a dramatizar tudo, precipitando o que sequer conseguimos prever com exatidão. Existir é mergulhar no imprevisto, pois mal somos capazes de dar conta do momento presente. E se o perdemos, estamos fadados a virar reféns do passado e do futuro. Crer-se doente já é estar doente. Prefiro preencher as lacunas do que virá do jeito mais positivo possível. Se não acontecer exatamente como imaginei, que se há de fazer? Quase tudo nos escapa pela simples razão de não sermos donos do que ainda não se desenhou. Aprecio a ideia de encontrar satisfação no cotidiano. A doçura é melhor acondicionada no universo doméstico.

A juventude tem essa grande vantagem: nada parece pesar tanto a ponto de impedir que cada um se lance sem rede. Proteger-se excessivamente é um sinal de que se está entrando na maturidade. Observe: é raro adolescentes usarem guarda-chuva. Eles se aventuram alegremente pelas ruas, sem medo de se molhar. Não pensam que desse gesto possa advir um resfriado. Entregam-se impetuosamente, certos de que nada de ruim lhes acontecerá. Essa beleza e esse frescor só serão percebidos, infelizmente, em retrospectiva. Na época em que tudo será medido, sob pena de nos sabermos culpados pela nossa irresponsabilidade. Seria maravilhoso se pudéssemos misturar todas as etapas, extraindo delas o que há de melhor. Na impossibilidade, que ao menos sejamos bafejados com escolhas mais corajosas, onde as nossas verdades não sejam sufocadas pelo medo de nos machucarmos. E, se uma única palavra há de se sobrepor em nosso vocabulário, que seja esta: vá. Ou melhor: vá em frente. Pois enquanto há pulsação, o sangue circula nas veias e nos impulsiona.

Somos regidos pelas ações, mas também pela linguagem. De tanto insistir, de tanto repetir, acabamos sendo a soma das frases que alimentam o nosso cérebro. Em algum ponto obscuro, tudo está conectado. Não sabemos o tamanho do estrago que podemos fazer ou da capacidade em determinar o que de melhor nos é reservado. Ainda tenho impressa na mente a convicção com que a criatura proferiu aquela “máxima”. Quem pensa assim está fadado a ver apenas as ervas daninhas do jardim. Não percebem que, a despeito do trabalho e da persistência que nos são exigidos, pode-se sentir o gosto e o frescor de cada ação até o final.É sempre a aceitação do que ocorre que precisa ser enaltecida. Ou tudo virará um eterno queixume. Aprendi, depois de ser testado com a melancolia, que se há algo que nos salva é o movimento. Há poucos dias, assisti ao depoimento de uma professora de balé de mais de oitenta anos. Entre tantas ponderações sábias, guardei essa: “O corpo é o melhor filósofo.” É ele quem nos diz por onde devemos seguir. Quando tudo funciona bem, nem notamos que temos um. Mas, ao menor desequilíbrio, à manifestação de uma doença, tudo se transforma e retemos apenas a sua dolorosa presença. E assim vamos seguindo, colando um momento a outro momento. Não se deve olhar em excesso para o mosaico dessas peças e tampouco tentar preencher os espaços vazios.

Sempre é possível aproveitar. Mesmo quando tudo parece estar suspenso por um fio de cabelo. O que vem depois pode ser colheita e mérito.

Gilmar Marcílio

Eu Quero Porque Quero

Gilmar Marcílio

06 de agosto de 20160

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Não sou muito bom na arte de esperar. Quando quero algo (de ordem material ou emocional) tenho vontade de largar tudo e sair correndo em busca da satisfação do meu desejo. Li dezenas de livros budistas, pratiquei meditação, procurei estar consciente quando os fatos acontecem. Os resultados, até hoje, não são muito animadores. Atribuo parte desse meu comportamento ao entorno em que vivo, ao apelo reiterado de fazer tudo com pressa, como se o mundo estivesse para acabar. De certa maneira, o final de um dia, ou mesmo de um minuto, carrega dentro de si essa significação oculta. Mas é possível pensar diferente, eu sei. Em momentos como esses, me sinto como uma criança mimada que bate os pés, amarra a cara e diz: “Eu quero porque quero.” Pronto. Qualquer razão ou lógica desaparecem. Na maioria das vezes, não vai além disso. Mas, às vezes, vem junto a aceleração cardíaca, a vontade de deixar de lado o que estou fazendo e me lambuzar com o novo regalo. Sei que se fizer isso, no entanto, estarei aproveitando uma mínima parte do que mobilizou todo o meu ser. Não é sem razão que uma das primeiras tarefas que os mestres orientais nos propõem é paralisar a ação, analisando cuidadosamente o que desfoca a nossa mente. Segundo eles, a causa de grande parte do sofrimento humano advém da incapacidade de contemplar, de sentir-se feliz ANTES da posse.

Talvez percebendo essa minha inclinação, um amigo me presenteou, recentemente, com a palavra “Sensatez”, esculpida em madeira. E sugeriu, com delicadeza, que eu a colocasse numa bancada próxima à minha cama, onde permaneceria ao lado dos retratos de meus escritores preferidos. E, mais importante do que isso, naquele lugar seria impossível não perceber a  presença todos os dias antes de dormir. O efeito tem sido considerável, terapêutico até, mas sei que preciso caminhar muito ainda para chegar onde quero. Talvez eu deva acrescentar um outro vocábulo: paciência. Que maravilha conseguir respirar fundo antes de se atirar sofregamente sobre as coisas. Devo dizer, a meu favor, que junto a essa ansiedade carrego uma dose descomunal de gosto pela vida. Sinto vontade de mastigar em grandes bocados o que se apresenta diante de mim. Sou sôfrego, talvez porque meus olhos se iluminam diante de qualquer possibilidade de sentir intensamente. O que não diminui a vontade de me manter sob controle. Em algumas situações, consigo por em prática a difícil arte do equilíbrio. Em outras, mergulho sem rede, indiferente aos estragos que possa causar para mim mesmo. Ser do signo de escorpião deve ter alguma parcela nisso. Dizem que somos afeitos às paixões, que preferimos os abismos às planícies. Que os astros dividam a responsabilidade comigo. Fica mais leve.

Minha preocupação maior é a de não incomodar quem está próximo. Ser reservado continua sendo uma meta. E se divido sem grande pudor isso com os outros, é por saber que não me encontro sozinho ao tratar desse assunto. Essa talvez seja uma das grandes belezas do ato de escrever: irmanar-se em nossa frágil e nem um pouco original humanidade. Somos todos deveras parecidos. Quem não tropeça aqui, o faz de outra maneira, mas sempre o faz. Essa consciência deveria despertar em nós um sentimento de solidariedade. O dedo em riste sendo recolhido rapidamente, na certeza de que muitas acusações são auto-acusações. Não servem como justificativa para o “delito”, mas nos libertam do peso de sermos fracos, incapazes de dominar nossos instintos. Cada um recorre a um expediente para se aliviar da sensação de urgência. O meu é ler poesia, longe de tudo e de todos. Funciona como um calmante e me faz pensar com mais lucidez sobre o que me atormenta. A consequência é sempre benéfica, sendo que novas doses precisam ser injetadas periodicamente, sob risco de se incorrer no mesmo erro.

Esse é o meu Rivotril. A vantagem é não ser tarja preta e não criar dependência. Ao contrário, liberta, mesmo quando os sintomas insistem em fazer residência na alma. E o que se apodera de nós vai talhando, a ferro e fogo, a nossa personalidade. Depois de certo tempo, acaba sendo responsável por definir quem somos. Fulano é muito calmo, sicrano é uma bomba prestes a explodir, beltrano tem a rara qualidade de dar sempre o conselho certo. Vou ter que andar muito ainda antes de apaziguar o que tem o risco de provocar grandes incêndios. Insisto em correr quando seria preciso desacelerar. Falo demais quando o ideal seria ficar em silêncio. Ainda assim comemoro esses transbordamentos como uma espécie de amor ilimitado. Vibro porque não aprendi a economizar afetos. Não me peçam contenção: sou um homem de exageros. Tenho o defeito de me antecipar a tudo. As papilas gustativas entram em ação já na véspera. Sofro com isso, mas não deixa de ser uma forma de estender o prazer da festa. Quando alguém me dá um presente, minha vontade é de dizer: nem precisava embrulhar. Em alguns segundos o papel será reduzido a quase nada. Olho para o que recebi e me considero premiado na loteria. Sinto o gosto por antecedência. Será mesmo um defeito?

Um dia hei de ser elegante e sóbrio. Por enquanto, deixo a marca dos meus pés por onde passo. Mas continuo acordando com um gosto de felicidade na boca. Transgrido a etiqueta em nome da exuberância da vida.

 

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Desvio de rota

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Autor: Gilmar Marcilio

Mostre-me uma pessoa que não se queixa e eu a reverenciarei. Fiz uma discreta alteração no clássico ditado, para dissecar um tema que diz sobre a maneira de agir de quase todos nós. Difere levemente da prosaica frase: o copo estará meio cheio ou meio vazio dependendo da parte para a qual você olha. Não serei eu a negar o quão crítico é o momento que vivemos. Mas não serei eu, igualmente, a me furtar de contabilizar os inúmeros ganhos que temos diante da liberdade que usufruímos. O incômodo nisso tudo é a persistência que observo em tantos de desqualificar esse lado luminoso da existência. Mas isso tem um alcance maior: conhecidos reclamam de tudo estar sendo duro demais para eles, merecedores que são de todas as benesses. O casamento anda ruim, o emprego apenas suportável e mal dá para pagar as contas fixas. Tudo isso pode ser verdade, mas ainda assim é possível extrair satisfação onde insistimos em imprimir somente negatividade. Eu faço parte da turma dos contentes. Acordo irritantemente feliz. O clima me influencia pouco e menos ainda o fato de ser segunda-feira. Gosto com variações de intensidade, mas poucas coisas me tiram do sério. Não sei que peso a genética tem nisso, mas atribuo uma parte do mérito à minha capacidade em renovar o prazer de viver. Passei por momentos difíceis, em que nada parecia ter mais sentido algum. Mas com a ajuda dos amigos, da terapia e de um remédio, tudo foi entrando novamente nos eixos.

Uns chamarão isso de resiliência. Prefiro usar uma palavra que é quase sinônimo dela: resistência. Uma prática de adaptação, de se manter em movimento mesmo quando tudo parece desmoronar. A dor arrasta consigo a crença de que jamais sairá de dentro de nós. A felicidade, com seu caráter delicadamente efêmero, nos encanta e amedronta. Até quando? Uma pergunta que costuma acompanhar a alegria manifesta. Procuro expulsar essa sensação, como se fosse um veneno que paralisa os pulmões. E vejo em tantos essa tendência ao dramático, mesmo diante do minúsculo, que me sinto tentado a dizer-lhes que eles não sabem o que é verdadeiramente sofrer. Estamos viciados nessa insatisfação que se instala a conta gotas, como se o universo nos fosse eternamente devedor. Reitero, constantemente, a minha credibilidade (e aceitação) no que muitos chamam de destino e outros tantos de acaso. Para mim, são apenas nomes diversos para representar algo semelhante. Os filósofos estoicos me fascinam pela sua sabedoria em reafirmar que a força reside no fato de nos curvarmos ao que não pode ser mudado. Simples? Então experimente vivenciar esse preceito. Se houve um desvio de rota aqui ou ali, tanto faz. Não será a primeira vez que isso resulta em algo melhor, mais adequado aos meus propósitos. Pouco sabemos e a entrega parece ser a melhor opção para seguirmos em nosso estado mais natural.

Mudar é sempre difícil, seja em que âmbito for. Então, vociferar contra tudo e contra todos passou a ser a melhor válvula de escape. Ainda hoje, no início da tarde, conversei com um amigo que mostrava descontentamento generalizado. Só que, tendo todas as condições para dar um basta no que o deixa desconfortável, prefere permanecer como está. A cada argumento que lhe apresentava, ele me respondia com um “mas sabe como é”.Essa insegurança é absolutamente humana, só que chega uma hora em que precisamos nos convencer de que somos marcados pelo efêmero. Sei que mais da metade do meu tempo de vida já passou. Isso não me entristece: amplia o sentimento de urgência. Se aproveitei menos do que merecia em minha juventude, não é razão suficiente para estragar o que me sobra. O cômputo só poderá ser feito no último dia de nossa existência. A maior das bênçãos é não podermos conhecer antecipadamente o futuro. Talvez seja por isso que não sou seduzido pela ideia de frequentar cartomantes. É uma atividade que merece o meu respeito como outra qualquer, mas prefiro passar ao largo. Gosto de me ocupar do presente. Raramente sinto tédio, porque meu interesse é constantemente despertado pelo que está ao meu redor. O script humano me fascina.

Durante anos mantive certa reserva em relação aos adolescentes. O contato com alunos de algumas escolas tem me mostrado o quão inteligentes e sensíveis eles podem ser. Quebrar esses paradigmas é um bom exercício para ampliar nossa percepção e apreciar sem preconceitos. Aproximar-se com a mente limpa nos permite uma avaliação mais clara daquilo que difere de nós. A instabilidade política e a demolição de quase todos os valores têm colocado muitos em pé de guerra. Desconhecidos destilando seu ódio sobre outros desconhecidos. Colegas deixando de conversar porque simpatizam com propostas divergentes de governo. Não tenho mais saúde para me entregar a esses jogos infantis. Fico a uma considerável distância para não me envolver. O que penso dessas questões permanece comigo. E assim vou seguindo, com essa única certeza: não sei o que o dia de amanhã me trará. Ainda bem.

Procuro afrouxar a alma para que nela caiba tudo. Prefiro trocar o Monte Calvário por uma planície verdejante. É um estado de espírito que precisa ser alimentado constantemente, sob o risco de desaparecer diante do bombardeio de notícias ruins. Mas, em algum período da história isso foi diferente?Creio que não. O que varia é a velocidade com que ficamos sabendo das brutalidades cometidas por uns contra os outros. Tudo o mais é uma rica viabilidade de usufruir plenamente do milagre que é a consciência. Que Deus se apiede dos profissionais da amargura.

Gilmar Marcilio

Blog Mar de Ideias

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