Muito Prazer, eu sou o seu sintoma

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MUITO PRAZER, EU SOU O SEU SINTOMA

Já pensou se o seu sintoma tivesse a chance de te escrever uma carta? Garanto que seria alguma coisa assim:

“Olá, tenho muitos nomes: dor de joelho, abscesso, dor de estômago, reumatismo, asma, mucosidade, gripe, dor nas costas, ciática, câncer, depressão, enxaqueca, tosse, dor de garganta, insuficiência renal, diabetes, hemorroidas e a lista continua. Ofereci-me como voluntário para o pior trabalho: ser o portador de notícias pouco agradáveis para você.

Você não entende, ninguém me compreende.
Você acha que eu quero lhe incomodar, estragar os seus planos de vida. Todo mundo pensa que desejo atrapalhar, fazer o mal, limitar vocês, e não é assim, isso seria um absurdo.

Eu o sintoma, simplesmente estou tentando lhe falar numa linguagem que você entenda.

Vamos ver, me diga alguma coisa. Você negociaria com terroristas, batendo na porta com uma flor na mão e vestindo uma camiseta com o símbolo da “paz” impresso nas costas? Não, certo?
Então, por que você não entende que eu, o sintoma não posso ser “sutil” e “levinho” quando preciso lhe passar uma mensagem.
Me bate, me odeia, reclama de mim para todas as pessoas, reclama de minha presença no seu corpo mas, não para um minuto para pensar e raciocinar e tentar compreender o motivo de minha presença no seu corpo.
Apenas escuto você dizer: “Cala-te”, “vá embora”, “te odeio”, “maldita a hora que apareces-te”, e muitas frases que me tornam impotente para lhe fazer entender mas, devo me manter firme e constante, porque devo lhe fazer entender a mensagem.

O que você faz? Manda-me dormir com remédios. Manda-me calar com sedativos, me suplica para desaparecer com anti-inflamatórios, quer me apagar com quimioterapia. Tenta dia após dia, me calar.
E me surpreendo de ver que às vezes, até prefere consultar bruxas e adivinhos para de forma “mágica” me fazer sumir do seu corpo.
A minha única intenção é lhe passar uma mensagem, mesmo assim, você me ignora totalmente.

Imagine que sou a sirene do Titanic, aquela que tenta de mil maneiras avisar que tem um iceberg na frente e você vai bater com ele e afundar. Toco e toco durante horas, semanas, meses, durante anos, tentando salvar sua vida, e você reclama que não deixo você dormir, que não deixo você caminhar, que não deixo você trabalhar, ainda assim continua sem me ouvir…

Está compreendendo?
Para você, eu o sintoma, sou “A doença”.
Que absurdo! Não confunda as coisas.
Aí você vai ao médico e paga por tantas consultas.
Gasta um dinheiro que não tem em medicamentos e só para me calar.

Eu não sou a doença, sou o sintoma.
Por que me cala, quando sou o único alarme que está tentando lhe salvar?

A doença “é você”, é “o seu estilo de vida”, são “as suas emoções contidas”, isso que é a doença e nenhum médico aqui no planeta Terra sabe como as combater, a única coisa que eles fazem é me atacar, ou seja, combater o sintoma, me calar, me silenciar, me fazer desaparecer. Tornar-me invisível para você não me enxergar.

É bom se você se sentir incomodado por estar lendo isso, deve ser algo assim como um “golpe na sua inteligência”. Está certo se estiver se sentindo frustrado, mas eu posso conduzir o teu processo muito bem e o entendo. De fato, isso faz parte do meu trabalho, não precisa se preocupar. A boa notícia é que depende de você não precisar mais de mim, depende totalmente de você analisar o que tento lhe dizer, o que tento prevenir.

Quando eu, “o sintoma” apareço na sua vida, não é para lhe cumprimentar, é para lhe avisar que uma emoção contida no seu corpo, deve ser analisada e resolvida para não ficar doente.

Deveria perguntar a si mesmo: “por que apareceu esse sintoma na minha vida”, “que pretende me alertar”? Por que está aparecendo esse sintoma agora?
Que devo mudar em mim?

Se você deixar essas perguntas apenas para sua mente, as respostas não vão levar você além do que já vem acontecendo há anos. Deve perguntar também ao seu inconsciente, ao seu coração, às suas emoções.

Por favor, quando eu aparecer no seu corpo, antes de procurar um médico para me adormecer, analise o que tento lhe dizer, verdadeiramente, por uma vez na vida, gostaria que o meu excelente trabalho fosse reconhecido e, quanto mais rápido tomar consciência do porquê do aparecimento no seu corpo, mais rápido irei embora.

Aos poucos descobrirá que quanto melhor analisar, menos lhe visitarei. Garanto a você que chegará o dia que não me verá nem me sentirá mais. Conforme atingir esse equilíbrio e perfeição como “analisador” de sua vida, de suas emoções, de suas reações, de sua coerência, não precisará mais consultar um médico ou comprar remédios.

Por favor, me deixe sem trabalho.
Ou você acha que eu gosto do que eu faço?

Convido você para refletir sobre o motivo de minha visita, cada vez que eu apareça.
Deixe de me mostrar para os seus amigos e sua família como se eu fosse um troféu.
Estou farto que você diga:
“Então, continuo com diabetes, sou diabético”.
“Não suporto mais a dor no joelho, não consigo caminhar”.
“Aqui estou eu, sempre com enxaqueca”.
Você acha que eu sou um tesouro do qual não pretende se desapegar jamais.
Meu trabalho é vergonhoso e você deveria sentir vergonha de tanto me elogiar na frente dos outros. Toda vez que isso acontece você na verdade, está dizendo: “Olhem que fraco sou, não consigo analisar, nem compreender o meu próprio corpo, as minhas emoções, não vivo coerentemente, reparem, reparem!”.

Por favor, tome consciência, reflita e aja.
Quanto antes o fizer, mais cedo partirei de sua vida!
Atenciosamente,
O sintoma.”

(Autor desconhecido)

Harmonia

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Harmonia pode não ser o mais conhecido dos estados de um sentimento, mas é com certeza o mais sutil, o mais profundo e talvez o mais essencial. Harmonia é o respeito trajado de carinho.

É harmonia a barra de chocolate divida no cinema, o copo de sorvete divido no fim de tarde. É harmonia a carícia na mão suada do outro enquanto ele aguarda a resposta daquele teste.
É harmonia a conversa afetuosa ao celular, a brincadeira carinhosa, o humor fácil que se conquista pela intimidade.
É harmonia quando se está distante pensando igual. É a conversa fácil, o escutar atento e o falar suave.
É harmonia entender a preocupação, a piada, o alerta, a explicação, sem que uma só palavra seja dita. É harmonia dividir a pia de louças e fazer guerra de espuma.

É harmonia deitarem-se juntos no silêncio do quarto e entreolharem-se, sem pretensão, sem malícia, apenas por admiração. Carícias na nuca. Beijo na testa. Abraço aconchegante. Mordiscada na orelha. Olhares fixos.

É harmonia correr juntos pra fugir da chuva e perceber que chegaram ensopados ao destino. É esquecer-se de avisar que o GPS havia mandado virar naquela esquerda que passou e ouvir o outro dizer “não se preocupe, ele recalcula!”. É dizer ao outro pra virar à esquerda, mas por um descuido ir pra direita, e os dois caírem na gargalhada.

É harmonia mandar mensagem no meio da madrugada apenas pra dizer: estava sonhando com você. Harmonia, afinal, são aquelas vivências que parecem bobas, as vezes rápidas, mas que carregam a profundidade necessária pra se tornarem memórias permanentes. São detalhes que fazem as “pequeninices” da vida tornarem-se acontecimentos de “frio na barriga”.

Por mais intenso que seja um “gostar”, sem harmonia não há brilhantismo, nem encanto, tão pouco constância. Porque pra todos e pra cada um, sempre chega um tempo de crise. Aquele momento em que a vida se desestabiliza por causa de circunstâncias inesperadamente desconcertantes.

E nesses tempos, em que ficamos por um triz, quem, sinceramente, nos vem em mente como porto seguro para as nossas inseguranças é exatamente aquela pessoa que dividiu os detalhes mais simples e profundos conosco. Que esteve, harmonicamente, ao nosso lado quando não estávamos em condições de oferecer o prazer imediato que costumeiramente se busca como retorno de uma relação.

Em um relacionamento construído com harmonia, ocorrerá que na confusão difusa dos tempos sombrios, bastará um simples “estou aqui do seu lado” para que o mundo volte a fazer algum sentido.Porque é na harmonia que reside as lembranças mais prazerosas, o companheirismo mais reconfortante e os gestos mais gentis. Detalhes que duram a eternidade.

VICTOR ALMEIDA MOREIRA

Replay: 10 dicas que recebemos ao chegar “por aqui”

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10 DICAS QUE RECEBEMOS AO CHEGAR ” POR AQUI ”

“1. Você receberá um corpo. Poderá amá-lo ou odiá-lo, mas ele será seu todo o tempo.

2. Você aprenderá lições. Você está matriculado numa escola informal de tempo integral chamada Vida. A cada dia, terá oportunidade de aprender lições. Você poderá amá-las ou considerá-las idiotas e irrelevantes.

3. Não há erros, apenas lições. O crescimento é um processo de ensaio e erro, de experimentação. Os experimentos ‘mal sucedidos’ são parte do processo, assim como experimentos que, em última análise, funcionam.

4. Cada lição é repetida até ser aprendida. Ela será apresentada a você sob várias formas. Quando você a tiver aprendido, passará para a próxima.

5. Aprender lições é uma tarefa sem fim. Não há nenhuma parte da vida que não contenha lições. Se você está vivo, há lições a serem aprendidas e ensinadas.

6. ‘Lá’ só será melhor que ‘aqui’ quando o seu ‘lá’ se tornar um ‘aqui’. Você simplesmente terá um outro ‘lá’ que novamente parecerá melhor que ‘aqui’.

7. Os outros são apenas espelhos de você. Você não pode amar ou odiar alguma coisa em outra pessoa, a menos que ela reflita algo que você ame ou deteste em você mesmo.

8. O que você faz da sua vida é problema seu. Você tem todas as ferramentas e recursos de que precisa. O que você faz com eles não é da conta de ninguém. A escolha é sua.

9. As respostas para as questões da vida estão dentro de você. Você só precisa olhar, ouvir e confiar.

10. Você se esquecerá de tudo isso.. e ainda assim, você se lembrará.”

PORTAL DO PAI respeitar e honrar os homens, respeitar e honrar o pai.

Dedico e agradeço ao meu pai Cesar Romano Quintão. E aos meus bisavós maternos Dolores Joana Gomez Gonzalez e José Gonçalves da Silva

 

Minha amiga Thais costuma brincar ao se referir aos homens, pra mim ela encontrou a melhor expressão…são seres silvestres. Em meio aos chás, aos cafés e delicias de bolos, passamos horas a refletir o quão não admiráveis são algumas espécies de homens.

Homens que não se assumem pais.
Homens que não respeitam as mulheres.
Homens que não amadurecem.
Homens que abandonam seus filhos.
Homens que agridem, que abusam, que traem, que agem pelo instinto em plena Era de Aquarius, que são tão inconscientes.

Esse olhar sobre os homens, por muito tempo, foi o olhar que mais me impactou durante a vida. É uma dor ancestral que vem desde muito antes de eu nascer, vem da minha ancestralidade de avó, de bisavó, de tataravó, de todas essas mulheres que caminharam ao lado de homens a perder suas forças, seus espaços e até suas vidas. Na minha vida e na vida de muitas de nós mulheres a história se repete.

Uma dor que vem de saber, a partir de cada uma das minhas células, do sofrimento que essas mulheres assumiram por causa das escolhas de seus homens. É forte em mim a memória da minha bisavó materna, Dolores, espanhola das mais lindas, que de tão desrespeitada pelo meu bisavô chegou ao extremo de se matar numa busca por interromper tantas dores e uma relação tão abusiva.

Acontece que as crenças e as memórias celulares que carregamos sobre os homens merecem nosso olhar e merecem curas. Essa integração uma hora ou outra precisa acontecer. Esse cambio de olhar de que são animais silvestres para o olhar de respeito aos homens precisa acontecer. Porque enquanto as partes feminino e masculino, yin e yang, não forem integradas, não estamos livres, não estamos inteiros, não estamos libertos. E continuamos a sofrer, mesmo sem saber o motivo.

Graças à constelação familiar e às leis sistêmicas consegui encontrar caminhos que guardavam a chave para essa cura. Um dos principais e mais poderosos portais de cura está no nosso pai. O pai biológico, e o pai adotivo pela procuração de responsabilidade que recebe do pai biológico, é o principal portal a ser atravessado para conseguirmos encontrar a integração com os homens dentro de nós.

Ao agradecermos nossa vida, independente de qualquer história que tivemos com nossos pais, independente de qualquer reação silvestre que eles tenham adotado, só de sermos capazes de agradecer pelo bem mais precioso que temos, a vida, estamos curando.

Só estamos vivos porque em um momento nosso pai e nossa mãe tiveram um encontro e geraram a vida que somos. É desse agradecimento que reativamos algo que gira a manivela que integra yin e yang, feminino e masculino.

Meu pai, esse Cesar Quintão de voz vez ou outra esbravejante, de pouco jeito para o abraço longo, é homem de palavras que dão coragem, de sonhos que se renovam, de permissão para os voos pelo mundo. Meu pai é esse portal que me dá força para ir voar no mundo. Meu pai é esse portal que transmuta meu olhar sobre os homens, deixando esse lugar que os percebo como seres mais primitivos para um lugar em que posso admirá-los. E por isso e tudo mais sou imensamente grata e admirada pelo meu pai

Admirar os homens, sei bem, exige muito de mim. E foi numa conversa com minha avó Maria, filha de uma mãe que se suicidou, que vi tantas curas… minha avó ainda dorme com a faca na cabeceira com medo de algum homem invadir sua casa enquanto dorme sozinha, ainda tem suas dores e seu receio sobre os homens, mas conseguiu criar um olhar de profundo agradecimento por eles, tem admiração e saudade imensa do meu avô, do seu pé quente aquecendo os seus à noite. Tem saudade de todas as conversas silenciosas que tiveram e dos companheiros que foram por tantos e tantos anos. E desde que meu avô se foi, ela se doou a cuidar da paróquia e um dos padres de Furquim se tornou também um grande amigo e um grande companheiro, ela fazendo suas roupas e numa amizade divina tendo as mais inteligentes conversas de sua vida. Admirada pelo meu avô, admirada pelo padre amigo. O coração da minha avó integrou o masculino num lugar de respeito.

É no respeito e na admiração que está nossa chave para integrarmos sagrado masculino e sagrado feminino. E nesse dia dos pais sinto ser um belo momento para essa cura… pela força do dia, pela força do masculino, pela expressão de amor e gratidão para os nossos pais. Vamos em curas.

Paula Quintão
13 de agosto de 2017

Paula Quintão é escritora & mentora de escritores, transição de vida e negócios digitais. Criadora da Escola de Rumos, do Portal Coragem Para Empreender e da Editora Suban a Los Techos, autora do livro Para Sempre Um Novo EU. “De passo em passo eu desvendo um mundo dentro e fora de mim”.

http://paulaquintao.com.br/portal-do-pai-respeitar-e-honrar-os-homens-respeitar-e-honrar-o-pai/

E os Bancos de Tempo chegaram ao Brasil

 

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Reúnem gente que troca serviços sem cobrar em dinheiro — e em bases igualitárias. Usam, como moeda, “créditos” de horas. Estão se espalhando pelo mundo, como saída diante da frieza das relações mercantis

Por Ana Claudia Araujo, no Catarinas

E se você pudesse fazer o seu melhor bolo de milho em troca de aprender algo de que gosta muito, como tocar violão? Este ciclo cooperativo, sem dinheiro, juros, dívidas, burocracia e exploração é a base do Banco de Tempo, uma iniciativa que permite a troca de habilidades – ou talentos – por horas. O sistema que desvia a lógica financeirizada das relações já existe em diversos países há algumas décadas e funciona também em muitas cidades brasileiras, como Florianópolis.

As primeiras experiências de banco de tempo teriam surgido na Itália há vinte anos e em Portugal há quinze. No Brasil, o sistema existe há menos de uma década em cidades do sul do país, como Garopaba (SC), Curitiba (PR) e Rio Grande (RS). O Banco de Tempo Florianópolis (BTF), criado há menos de dois anos, tem cerca de 1700 pessoas cadastradas e outras 15 mil no grupo virtual mantido no Facebook.

Os serviços oferecidos são os mais diversos e divididos em quinze categorias, como alimentos, transporte, turismo e projetos. O número de horas cobradas por cada um deles pode variar e a negociação é liberada, mas todos os talentos são valorados da mesma forma.

“Tempo não é dinheiro, é vida. E como a vida de todo mundo é igualmente valiosa, uma hora de consulta médica é igual a uma hora de serviço de pintura”, explica Thaís Maschio, uma das idealizadoras da plataforma que funciona pelo Facebook.

A troca de produtos também é permitida desde que os itens sejam produzidos pelos próprios/as associados/as.

A ideia do BTF nasceu dentro de um coletivo chamado Zeitgeist. O grupo levava o nome do filme, uma trilogia disponível em diferentes plataformas de vídeo na internet e que convoca os espectadores para mudanças culturais e adoção de padrões sustentáveis. Na prática, o grupo planejava ações para problemas sociais contemporâneos. “A gente tava pensando sobre o que fazer de real e prático, que tivesse impacto verdadeiro na sociedade”, conta Geovana Madeira Narcizo, uma das idealizadoras do BTF.

Foi após o parto da filha, há dois anos, que ela encontrou tempo e energia para estruturar o Banco de Tempo. “Tive o privilégio de uma gravidez tranquila e de poder ficar em casa cuidando da minha filha.  Nesta fase, pude dedicar um pouco da minha energia criadora pra fazer o BTF funcionar”, conta a “banqueira”, que começou a cursar Ciências Ambientais e Artes Plásticas, mas preferiu seguir seu próprio caminho de aprendizado, sem diploma. Assim como ela, Thaís também se divide entre a maternidade e as tarefas administrativas do Banco de Tempo, com planos de cursar Biologia assim que os filhos crescerem.

As mulheres são mais da metade das pessoas cadastradas no BTF. Muitas delas fazem parte do expressivo contingente que vê, no que o sistema tradicional chama de “trabalho informal”, a possibilidade de conciliar a rotina materna. No Banco de Tempo, encontram serviços que facilitam a sua vida e protagonizam diversas ações.

“É muito lindo de ver como o número de mulheres se sobrepõe em qualquer ação do Banco de Tempo”, conta Geovana.

Menos dinheiro, mais tempo

Desde que começou a usar o BTF, Paula Veiga já vendeu doces, ofereceu massagens e vagas em oficina de mandalas pelo banco de tempo. Em troca, ganhou corte de cabelo, um sofá e até consulta veterinária para o gato Gogh. “Pude usufruir de serviços que eu nem cogitava porque não poderia incluí-los no meu orçamento mensal. Pelo banco, a gente consegue explorar tudo o que sabe fazer e o tempo acaba virando dinheiro de verdade”, conta.

Quem cuidou do gato Gogh foi Ellusa Assunção. Adepta das iniciativas economicamente solidárias, a veterinária holística já tinha ouvido falar sobre o Banco de Tempo de Portugal quando viu surgir o BTF. “Sempre tive essa pegada de prestar trabalhos sociais e já fazia trocas diretas no consultório”, lembra. Desde então, separa pelo menos duas consultas semanais na sua agenda para trocas pelo banco. Com seus créditos, fez terapia Thetahealing com Bárbara Ferreira, que participa do Banco há quatro meses. Historiadora, Bárbara vê no BTF a oportunidade do encontro de pessoas com este interesse comum.

“Sinto que o banco de tempo é mesmo uma ferramenta de trocas mais justa. Se a sociedade em geral fosse assim a gente viveria num sistema mais equilibrado econômica e energeticamente. Grandes profissionais que estão em busca dessa mudança de paradigmas econômicos estão cadastrados lá”, afirma.

Seja pelo Banco de Tempo ou na clínica onde trabalha, a clientela de Ellusa recebe o mesmo tratamento, assegura a veterinária. “Sempre procuro um profissional com referências. A gente tem que prestar o serviço para o qual é qualificado”, diz a médica, que tem planos de ampliar a lista de talentos oferecidos. É que a experiência de permuta sem valor financeiro ajudou a impulsionar o sonho de promover um projeto social. Ellusa faz formação em yoga e, assim que concluir os estudos, planeja oferecer aulas gratuitas da prática na comunidade da Caeira da Barra do Sul, onde mora, com vagas reservadas para usuárias/os do BTF.

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Ação anticapitalista

A lista de talentos disponíveis tem menos a ver com uma formação profissional específica do que com a aptidão: quem não gosta de cortar grama pode convocar outra pessoa mais disposta a esta tarefa e, em vez disso, preparar sopas para “vender” pelo mesmo valor, sempre pago em horas. “O capitalismo faz com que as pessoas praticamente virem a sua profissão e que seus  talentos só tenham valor na medida em que tragam retorno financeiro”, afirma Geovana. Ela argumenta também que a redescoberta de habilidades é um dos primeiros questionamentos provocados na vida de quem participa do Banco de Tempo.  “Quando a pessoa se cadastra no BTF, muitas vezes não sabe o que oferecer. Então, passa a se questionar e lembrar de coisas que gostava de fazer lá na infância, que é quando a gente entra em contato com muitos dos nossos talentos pela primeira vez”.

Em lugar da competição profissional, regra reverenciada pelo modelo capitalista, a cooperação acontece, transformando a forma como as pessoas se relacionam, conta Paula Veiga que também integra o BTF. “Muita gente oferece o que eu ofereço lá e não existe uma competição, mas um clima muito amistoso, de valorizar o potencial criativo do outro e a disponibilidade. Tudo é feito com muita entrega e muito amor e você acaba dando muito mais valor pras coisas”, conta.

“No banco, a gente encontra pessoas com cabeça pra mudança.  A partir do momento que você aceita participar de um movimento assim, aflora alguma coisa em você. A gente não consegue pagar um aluguel com ele, mas consegue melhorar a qualidade de vida e explorar potencial”, explica.

Projetos sociais

As trocas de talentos também alimentam projetos sociais e artísticos propostos e promovidos por associadas/os do Banco de Tempo. Reformas de espaços comunitários, festivais artísticos, cursos de idiomas, terapias e diversas outras ações se dedicam a resolver problemas comuns e prover espaços de convivência e cultura. Em vez de apenas delegar as responsabilidades para o poder público, a proposta é resolver o que está ao alcance da comunidade.

Funciona assim: as “transações” geram créditos para o próprio BTF e este “caixa de tempo” acumulado pelo banco é que patrocina as ações.  “Se um professor der uma aula de uma hora pra dez alunos, ele vai ganhar só uma hora e estas outras que foram arrecadadas voltam para o caixa de projetos sociais. Do ponto de vista capitalista, não faz sentido nenhum, mas do ponto de vista comunitário este professor tem a possibilidade de dar uma aula particular e receber esta mesma hora. É opcional ninguém é obrigado. Mas aí existe a possibilidade de, com esta hora da vida do professor, beneficiar dez pessoas e fomentar o caixa de projetos sociais”, explica Geovana Narciso.

Menos competição, mais abundância

As práticas de economia colaborativa não são nenhuma novidade. Ao contrário, eram a base da economia nas antigas civilizações. “A troca de dádivas existe há algumas gerações mesmo dentro do sistema capitalista”, assegura Thaís.

Ao romper com o sistema tradicional financeirizado, estas iniciativas propõem a substituição do chamado paradigma da escassez por uma lógica de abundância.

O paradigma da escassez, explica Geovana, que rege o sistema capitalista, parte do pressuposto que os recursos disponíveis são limitados e insuficientes para todas as pessoas, o que leva a um ritmo de trabalho acelerado para dar conta do alto nível de consumo. “Neste sistema, não precisa saber se a sua roupa está sendo fabricada por um escravo, não interessa se o leite vem de uma vaca escravizada 24 horas por dia. A frase do capitalismo é ‘eu tou pagando’. É isso que justifica uma pessoa ter três jatos, cinco iates e outras milhares de pessoas morrerem de fome. De fato, o planeta não tem capacidade pra alimentar esse desejo de consumo voraz”, afirma Geovana Narciso.

Já o paradigma da abundância contrapõe o conceito da escassez aplicada aos recursos. “O paradigma da abundância é uma troca de chave de como você enxerga o mundo. A comida nasce do chão e está disponível. Outra grande parte dela vem sendo desperdiçada, sendo jogada no lixo. Então, temos recursos ‘a rodo’ que não estão sendo utilizados. Não é que os recursos sejam escassos, o sistema é que precisa escoar pouco pra que ele funcione”, assegura Geovana, que tem os olhos brilhantes quando fala sobre como iniciativas coletivas podem mudar o mundo. “A gente vai conseguir ter um futuro ‘sustentável’, no sentido de se sustentar ecologicamente e como comunidade, se nos apoiarmos como grupo. Pensando no mundo e no outro, tendo essa empatia generalizada pelo planeta Terra e pelas pessoas”, acredita.

Redação

O Outras Mídias é uma seleção de textos publicados nas mídias livres, que Outras Palavras republica.

“Só quem atravessa ao menos cinco décadas de vida …

Só quem atravessa ao menos cinco décadas de vida pode entender a bênção que é entrar na segunda juventude”. 
Claro que antes é preciso passar pelo purgatório.
Poucos chegam aos 50 anos sem fazer uma profunda reflexão sobre a finitude, e dá um frio na barriga, claro. Amedronta principalmente quem ainda não fez nem metade do que gostaria de já ter feito a essa altura. Será que vai dar tempo?
Passado o susto, a resposta: vai.
E se não der, não tem problema. Você não precisa morrer colecionando vontades não realizadas. Troque de vontades e siga em frente sem ruminar arrependimentos. Você finalmente atingiu o apogeu da sua juventude: é livre como nunca foi antes.
Então, não passe mais nem um dia ao lado de alguém que lhe esnoba, lhe provoca, que não se importa com seus sentimentos. Pare de inventar razões para manter seus infortúnios, você já fez sacrifícios suficientes, agora se permita um caminho mais fácil.
Se ainda dá trela a fantasmas, se ainda pensa em vingancinhas ordinárias, se ainda não perdoou seus pais e seu passado, se ainda perde tempo com vaidades e ambições desmedidas, se ainda está preocupado com o que os outros pensam sobre você, está pedindo: logo, logo virará um caco.
Para alcançar e merecer a segunda juventude, é preciso se desapegar de todas aquelas preocupações que havia na primeira. Quando essa Juventude Parte 2 terminar, não virá a Juventude Parte 3, mas o fim.
Ou seja, esta é a última e deliciosa oportunidade de abandonar os rancores, não perder mais tempo com besteiras e dar adeus à arrogância, à petulância, à agressividade, ou seja, adeus às armas, aquelas que você usava para se defender contra inimigos imaginários.
Agora ninguém mais lhe ataca, só o tempo – em vez de brigar contra ele, alie-se a ele, tome o tempo todo para si.
Eu sei que você teve problemas, e talvez ainda tenha – muitos. Eu também tive, talvez não tão graves, depende da perspectiva que se olha.
Mas isso não pode nos impedir a graça de sermos joviais como nunca fomos antes. Lembra quando você dizia que só gostaria de voltar à adolescência se pudesse ter a cabeça que tem hoje? Praticamente está acontecendo.
Essa é a diferença que tem que ser comemorada. Na primeira juventude, tudo vai acontecer. Na segunda, está acontecendo.”

Martha Medeiros

 

FOTOGRAFIA : Lou Kenny – a modelo australiana, hoje com 58 anos, continua deslumbrante nas passerelles e à frente de grandes marcas como a L’Oreal.

© All Rights Reserved / heatherfavell

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A carta mais linda do mundo escrita por José Saramago para sua avó

A carta mais linda do mundo escrita por José Saramago para sua avó

August 7, 2017

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal A Capital, de Lisboa, a crônica Carta a Josefa, minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro Deste Mundo e do Outro. Abaixo segue a reprodução da página do jornal A Capital em que foi originalmente publicado o texto. Confira a carta na íntegra:

*Optamos por manter a grafia do português de Portugal*

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Carta para Josefa, minha avó

‘Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.’

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